em residência: Rubiane Maia

Inesquecível

O ajudante é a figura daquele que se perde. Ou, melhor, da relação com o perdido. Isto refere-se a tudo aquilo que, tanto na vida coletiva quanto na individual, é esquecido em cada instante, na massa interminável daquilo que, disso, fica irremediavelmente perdido. Em todos os momentos, a mistura de esquecimento e de ruína, o esbanjamento ontológico que trazemos em nós, ultrapassa em muito, a piedade das nossas recordações e da nossa consciência. Mas este caos informe do esquecido, que nos acompanha como um golem silencioso, não é inerte nem ineficaz – pelo contrário, age em nós com uma força que não é menor do que a das recordações conscientes, embora aja de forma diferente. Existe uma força e quase uma interpelação do esquecido que não se pode medir em termos de consciência nem acumular como patrimônio, mas cuja insistência determina a categoria de cada saber e de cada consciência. Aquilo que o perdido exige não é ser recordado ou satisfeito, mas, sim, permanecer em nós enquanto esquecimento, enquanto perdido e, unicamente por isto, inesquecível. Em tudo isto, o ajudante é da casa. Recolhe o texto do inesquecível e tradu-lo para a língua dos surdos-mudos. Daí aquele seu obstinado gesticular, daí a sua impassível cara de palhaço. Daí, também, a sua irremediável ambigüidade. Porque do inesquecível só pode haver paródia. O lugar do canto está vazio. Ao lado e em volta afatigam-se os ajudantes que preparam o Reino.

(Giorgio Agamben, Profanações – Os ajudantes, p. 48 – 49.)

Inesquecível é um projeto em processo, e que tenta abordar algumas conexões entre o corpo e o tempo, principalmente pela via da memória, e mais especificamente através das forças visíveis e invisíveis que passam pela ação do lembrar e do esquecer. Ação que coloca em xeque os nossos modos e hábitos de se relacionar com a vida. Criar, experimentar, explorar, processar, a memória em nós é trabalhar com aquilo que constantemente está a nos escapar. É ao mesmo tempo escrever e apagar o livro da vida – ora sobrecarregado, ora outra em tons de branco.

Aqui, a pesquisa de corpo e imagem se compõe na construção de uma performance, e um vídeo no qual exercito as ambigüidades da linguagem verbal por meio da duração e da repetição – o exercício é decorar toda a conjugação do verbo ‘esquecer’ em seus diferentes modos e tempos. Insistir, insistir, insistir… Para esquecer, esquecer, esquecer… E, no entanto só lembrar, lembrar, lembrar…

Afinal, do que é feita a eternidade?

*durante a residência nos concentraremos na pesquisa teórica, com diversas leituras que possam enriquecer e ampliar o estudo dessa temática, e realizaremos alguns exercícios e experimentações corporais e sonoras como laboratório para a ação.

Bio:

Rubiane Maia é artista, professora e pesquisadora. Graduada em Artes Visuais e Mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. Interessa-se especialmente pelas linguagens mais diretamente relacionadas ao corpo, e trabalha no entrecruzamento entre a performance, a instalação, a fotografia e o vídeo. Em seu processo de criação e pesquisa flerta bastante com o cinema e a literatura, e também gosta de escrever ensaios, poesias e textos livres sobre suas experiências com a arte e a vida cotidiana. Na universidade entre 2009 – 2011 integrou o núcleo de pesquisa LIS/CNPq – Laboratório de Imagens da Subjetividade. Em 2010 – 2011 coordenou junto ao LAP! Laboratório de Ação e Performance (com Marcus Vinícius) o projeto TRAMPOLIM – Plataforma de encontro com a arte da performance. Desde 2011 é colaboradora-articuladora do BOOM – Global Creative Action (conexão Brasil) uma plataforma mundial para ações simultâneas ao vivo e em rede. Em 2012 participou de diversos eventos, festivais e residências no Brasil, França, Reino Unido, Espanha e Itália.

Vive e trabalha em Vitória, ES. Brasil.

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Sobre seuvicenteresidencias

O coletivo qualquer é formado por Luciana Chieregati(BR) e Ibon Salvador(País Basco). Tem como foco de investigação a dança e como a prática e a teoria caminham na mesma direção, entendendo as diferenciações como possibilidades de novos entendimentos a partir da criação de redes e hibridações. Seu Vicente Residências Artísticas é sua casa, onde são os residentes permanentes e porteiros. Fazem parte da equipa do c-e-m(centro em movimento) que com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, tem como horizonte fazer desse espaço, um lugar de convivências, encontros e compartilhamento de idéias acerca da contemporaneidade, recebendo ali artistas, filósofos, jardineiros, empregados de mesa e quem tiver vontade de pensar relações e estares.

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